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domingo, junho 30, 2013

Entrevista com Manuel Castells: ‘O povo não vai se cansar de protestar’

Originalmente publicada no O GLOBO.

Para o sociólogo catalão Manuel Castells, boa parte dos políticos é de “burocratas preguiçosos”. Ele é um dos pensadores mais influentes do mundo, com suas análises sobre os efeitos da tecnologia na economia, na cultura e, principalmente, no ativismo. Conhecido por sua língua afiada, o espanhol falou ao GLOBO por e-mail sobre os protestos.



Os protestos no Brasil não tinham líderes. Isso é uma qualidade ou um defeito?

Claro que é uma qualidade. Não há cabeças para serem cortadas. Assim, as redes se espalham e alcançam novos espaços na internet e nas ruas. Não se trata, apenas, de redes na internet, mas redes presenciais.

Como conseguir interlocução com as instituições sem líderes?

Eles apresentam suas demandas no espaço público, e cabe às instituições estabelecer o diálogo. Uma comissão pode até ser eleita para encontrar o presidente, mas não líderes.

Como explicar os protestos?

É um movimento contra a corrupção e a arrogância dos políticos, em defesa da dignidade e dos direitos humanos — aí incluído o transporte. Os movimentos recentes colocam a dignidade e a democracia como meta, mais do que o combate à pobreza. É um protesto democrático e moral, como a maioria dos outros recentes.

Por que o senhor disse que os protestos brasileiros são um “ponto de inflexão”?

É a primeira vez que os brasileiros se manifestam fora dos canais tradicionais, como partidos e sindicatos. As pessoas cobram soberania política. É um movimento contra o monopólio do poder por parte de partidos altamente burocratizados. É, ainda, uma manifestação contra o crescimento econômico que não cuida da qualidade de vida nas cidades. No caso, o tema foi o transporte. Eles são contra a ideia do crescimento pelo crescimento, o mantra do neodesenvolvimentismo da América Latina, seja de direita, seja de esquerda. Como o Brasil costuma criar tendências, estamos em um ponto de inflexão não só para ele e o continente. A ideologia do crescimento, como solução para os problemas sociais, foi desmistificada.

O que costuma mover esses protestos?

O ultraje, causado pela desatenção dos políticos e burocratas do governo pelos problemas e desejos de seus cidadãos, que os elegem e pagam seus salários. O principal é que milhares de cidadãos se sentem fortalecidos agora.

O senhor acha que eles podem ter sucesso sem uma pauta bem definida de pedidos?

Acho inacreditável. Além de passarem por uma série de problemas urbanos, ainda se exige que eles façam o trabalho de profissional que deveria ser dos burocratas preguiçosos responsáveis pela bagunça nos serviços. Os cidadãos só apontam os problemas. Resolvê-los é trabalho para os políticos e técnicos pagos por eles para fazê-lo.

Com organização horizontal, esse movimento pode durar?

Vai durar para sempre na internet e na mente da população. E continuará nas ruas até que exigências sejam satisfeitas, enquanto os políticos tentarem ignorar o movimento, na esperança que o povo se canse. Ele não vai se cansar. No máximo, vai mudar a forma de protestar.

Outra característica dos protestos eram bandeiras à esquerda e à direita do espectro político. Como isso é possível?

O espaço público reúne a sociedade em sua diversidade. A direita, a esquerda, os malucos, os sonhadores, os realistas, os ativistas, os piadistas, os revoltados — todo mundo. Anormal seriam legiões em ordem, organizadas por uma única bandeira e lideradas por burocratas partidários. É o caos criativo, não a ordem preestabelecida.

Há uma crise da democracia representativa?

Claro que há. A maior parte dos cidadãos do mundo não se sente representada por seu governo e parlamento. Partidos são universalmente desprezados pela maioria das pessoas. A culpa é dos políticos. Eles acreditam que seus cargos lhes pertencem, esquecendo que são pagos pelo povo. Boa parte, ainda que não a maioria, é corrupta, e as campanhas costumam ser financiadas ilegalmente no mundo inteiro. Democracia não é só votar de quatro em quatro anos nas bases de uma lei eleitoral trapaceira. As eleições viraram um mercado político, e o espaço público só é usado para debate nelas. O desejo de participação não é bem-vindo, e as redes sociais são vistas com desconfiança pelo establishment político.

O senhor vê algo em comum entre os protestos no Brasil e na Turquia?

Sim, a deterioração da qualidade de vida urbana sob o crescimento econômico irrestrito, que não dá atenção à vida dos cidadãos. Especuladores imobiliários e burocratas, normalmente corruptos, são os inimigos nos dois casos.

Protestos convocados pela internet nunca tinham reunido tantas pessoas no Brasil. Qual a diferença entre a convocação que funciona e a que não tem sucesso?


O meio não é a mensagem. Tudo depende do impacto que uma mensagem tem na consciência de muitas pessoas. As mídias sociais só permitem a distribuição viral de qualquer mensagem e o acompanhamento da ação coletiva.

segunda-feira, junho 24, 2013

ADIADO O #VEMPRARUA NO ATUALIDADES

Por tudo que vem acontecendo nas últimas semanas, o ATUALIDADES do dia 27 de Junho mudou de temática.

Infelizmente o encontro marcado para esta quinta do ATUALIDADES #VEMPRARUA que debateria sobre as causas, as características e as possíveis consequências desse momento em que a população foi as ruas para protestar foi adiado.

Estamos vendo uma data melhor junto a coordenação e ao nosso convidado, Milton Temer.

Em breve, mais notícias.


quarta-feira, junho 19, 2013

PEC 37?


Junto ao movimento de ida a rua que vem tomando força nos últimos dias em diversas cidades do Brasil e do mundo surgem também as reivindicações. O estopim foi o aumento na tarifa do ônibus, mas uma série de outras questões fazem parte do grito pelas ruas, a corrupção, a falta de transparência e o absurdo dos investimentos para  Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, a má qualidade da saúde e educação públicas e a PEC37 entre tantos outros.

Espera, você sabe o que é uma PEC? E mais especificamente, a PEC 37? O que muda se ela for aprovada?

PEC é uma sigla que quer dizer Proposta de Emenda à Constituição que na prática nada mais é que uma atualização, um emendo à Constituição Federal. Uma das propostas que exige mais tempo para preparo, elaboração e votação, uma vez que modificará a Constituição Federal que para ser aprovada, requer quórum quase máximo e dois turnos de votação em cada uma das Casas legislativas, Câmara dos Deputados e Senado Federal.

A PEC37 (PEC 37/2011) define como competência "privativa" da polícia as investigações criminais ao acrescentar um parágrafo ao artigo 144 da Constituição. O texto passaria a ter a seguinte redação: "A apuração das infrações penais (...) incumbe privativamente às polícias federal e civis dos estados e do Distrito Federal." 

Atualmente a legislação brasileira confere à polícia a tarefa de apurar infrações penais, mas em momento algum afirma que essa atribuição é exclusiva da categoria policial. No caso do Ministério Público, a Constituição não lhe dá explicitamente essa prerrogativa, mas tampouco lhe proíbe. É nesse vácuo da legislação que defensores da PEC 37 tentam agora agir. 

Na prática, se aprovada, a emenda praticamente inviabilizará investigações contra o crime organizado, desvio de verbas, corrupção, abusos cometidos por agentes do Estado e violações de direitos humanos.

Os grandes escândalos sempre foram investigados e denunciados pelo Ministério Público, que atua em defesa da cidadania de forma independente. A PEC 37 atenta contra o regime democrático, a cidadania e o Estado de Direito e pode impedir também que outros órgãos realizem investigações, como a Receita Federal, a COAF (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), o TCU (Tribunal de Contas da União), as CPIs (Comissões Parlamentares de Inquérito), entre outros.

Em todo o mundo, apenas três países vedam a investigação do MP: Quênia, Indonésia e Uganda.


domingo, março 17, 2013

Bem mais que "apenas" Futebol

Comemoração polêmica

AEK e Federação prometem punição a jogador que teria feito gesto nazista

Instituição máxima do futebol grego lembra que Fifa prevê pena máxima de banimento do esporte para meia que comemorou gol com movimento polêmico


Uma polêmica envolveu a vitória do AEK Atenas sobre o Veria, por 2 a 1, no Campeonato Grego. Após marcar o gol que decretou o triunfo do seu time, o meia Giorgos Katidis aparentemente teria comemorado com um gesto de saudação nazista, o que revoltou parte da torcida do próprio time. O clube do jogador emitiu um comunicado oficial em seu site pedindo desculpas pela atitude do seu atleta e afirmou que o Conselho vai decidir, na próxima terça-feira, qual punição será aplicada ao jogador.

A Federação Grega de Futebol também decidiu entrar no caso e convocou uma reunião extraordinária de sua secretaria executiva para a manhã deste domingo. Segundo a nota, a instituição “condena inequívoca e categoricamente” os gestos de Katidis, e cede o seu apoio para que os órgãos que julgam este tipo de caso apliquem a pena com o máximo rigor. O comunicado ainda lembra que, segundo instruções da Fifa, o jogador pode até ser banido do esporte.


Apesar de lamentar o episódio, a HFF assinala que a atitude não foi totalmente inesperada, uma vez que a Grécia tem este tipo de manifestação em outros locais, que não o futebol, e se disse atenta para coibir esse tipo de prática em campos e arquibancadas. No entanto, lembrou que o caso pode e deve ser tratado como crime e investigado pela polícia local.

O episódio aconteceu neste sábado, durante a 26ª rodada do campeonato Grego. O AEK está no meio da tabela da competição, em 10º, com 29 pontos. Já o Veria se encontra em 13º, com apenas dois pontos a menos.

Leia mais sobre o tema na matéria publicana no Opera MundiCom crise e neonazismo, Grécia vive nova diáspora* epopulação encolhe


Confira a nota da Federação Grega na íntegra:

Em reunião extraordinária neste domingo, 17 de março, 2013, a Secretaria Executiva da Federação Grega de Futebol decidiu em resposta à saudação nazista George Katidi o jogo AEK Veria e após análise de todos os dados, por unanimidade, o seguinte:

A energia do jogador para saudar os espectadores de nazistas é brutal e afeta profundamente todas as vítimas das atrocidades nazistas, ferindo o caráter pacífico e profundamente humano do futebol. A Federação condena de forma inequívoca e categoricamente a atitude.

No âmbito dos seus poderes de decidir a exclusão da vida de George Katidi, a Federação Grega de Futebol previu fenômenos análogos e já incluem a proibição desse tipo de ação nos contratos que os jogadores assinam com as equipes.

A HFF está certa também que os órgãos disciplinares competentes devem intervir de forma decisiva e impor as sanções previstas no Código Disciplinar para o crime. Entre as penas mais pesadas ​​no futebol, a Fifa instituiu para tal casos o banimento total do atleta.

Finalmente, a Federação Grega de Futebol tomará todas as medidas necessárias para preservar a natureza pacífica do futebol, e para promover os valores da solidariedade, da cooperação e do respeito que professa.

Refletindo...

Momentos de crise como a que assola a Europa nos últimos anos são terreno fértil para a proliferação de ideias ultranacionalistas, de extrema direita tais como as que alimentam o movimento neonazista. A xenofobia é outro sentimento que é alimentado pela crise econômica muitas vezes incentivado pelo próprio governo  que usa os imigrantes como "bode expiatório"  da situação tentando se eximir de  qualquer tipo de culpa. 


* O termo diáspora (em grego antigo, διασπορά – "dispersão") define o deslocamento, normalmente forçado ou incentivado, de grandes massas populacionais originárias de uma zona determinada para várias áreas de acolhimento distintas. O termo "diáspora" é usado com muita frequência para fazer referência à dispersão do povo hebreu no mundo antigo, a partir do exílio na Babilônia no século VI a.C. e, especialmente, depois da destruição de Jerusalém em  70 d.C.
Em termos gerais, diáspora pode significar a dispersão de qualquer povo ou etnia pelo mundo. Todavia o termo foi originalmente cunhado para designar à migração e colonização, por parte dos gregos, de diversos locais ao longo da Ásia Menor e Mediterrâneo, de 800 a 600 a.C. Associada ao destino do povo hebreu, a palavra foi utilizada na tradução da Septuaginta (em grego) da Bíblia, onde se inscrevia como uma maldição: "Serás disperso por todos os reinos da terra."