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sábado, junho 21, 2014

Bem Mais Que Apenas Futebol - Copa do Mundo do Brasil tem 85 jogadores naturalizados


Mais uma vez os irmãos Boateng entram juntos em campo para disputar uma partida de Copa do Mundo. Fato inusitado? Sim, mas não pelo fato de serem irmãos. São inúmeros casos de irmãos que disputaram Copas do mundo juntos. A curiosidade se dá pelo fato de os dois serem adversários, um defende a seleção da Alemanha e o outro a seleção de Gana. Kevin-Prince e Jerome, nascidos em Berlim, são filhos do mesmo pai, ganês e de mães alemães, irmãos, optaram por defender países diferentes.

Agora, defender países diferentes de seu nascimento não é fato incomum. A Copa do Brasil tem mais de 80 jogadores naturalizados. O destaque fica pra Argélia com 18 de seus 23 componentes nascidos na França.

Daí vem a pergunta: Como seriam as seleções da Copa sem jogadores imigrantes?  

Com a crise econômica instalada há quase uma década e com o avanço da extrema-direita na Europa, cresce o debate sobre a participação dos imigrantes na sociedade de um modo geral e, inclusive, nas seleções de futebol. 


Na Europa não existem só os torcedores racistas atirando bananas para o campo, mas os partidos políticos de extrema direita estão ganhando terreno como na França e na Holanda. 

Atualmente, a maioria dos Hooligans alemães são neonazistas. E este ano a Suíça votou para reduzir a imigração, desafiando o espírito das leis que permitem aos cidadãos a liberdade de circulação em toda a União Europeia.



Se definido amplamente a um “estrangeiro” como qualquer pessoa com pelo menos um progenitor nascido em outro país, a equipe suíça perderia dois terços de seus jogadores. França e Holanda ficariam muito desfalcados para a Copa do Mundo no Brasil e poderiam não conseguir passar nem da primeira fase. Já Argélia, Gana e Turquia seriam as equipes que teriam mais reforços.

Levando-se em consideração apenas o local de nascimento, seriam 85 os naturalizados.

Observe a lista a seguir.
Estrangeiros da Copa
Jogador
Seleção
País de nascimento
Podolski
Alemanha
Polônia
Klose
Alemanha
Polônia
Cédric Mohamed
Argélia
França
Bougherra
Argélia
França
Ghoulam
Argélia
França
Yebda
Argélia
França
Lacen
Argélia
França
Ghilas
Argélia
França
Feghouli
Argélia
França
Brahimi
Argélia
França
Medjani
Argélia
França
Slimani
Argélia
França
Bentaleb
Argélia
França
Soudani
Argélia
França
Cadamuro
Argélia
França
Taider
Argélia
França
Mandi
Argélia
França
Mahrez
Argélia
França
Mostefa
Argélia
França
M’Bolhi
Argélia
França
Higuaín
Argentina
França
Vidosic
Austrália
Croácia
Vanden Borre
Bélgica
República Democrática do Congo
Spahic
Bósnia e Herzegóvina
Croácia
Kolasinac
Bósnia e Herzegóvina
Alemanha
Besic
Bósnia e Herzegóvina
Alemanha
Misimovic
Bósnia e Herzegóvina
Alemanha
Mujdza
Bósnia e Herzegóvina
Croácia
Hajrovic
Bósnia e Herzegóvina
Suíça
Assou-Ekotto
Camarões
França
Choupo-Moting
Camarões
Alemanha
Itandje
Camarões
França
Matip
Camarões
Alemanha
Nyom
Camarões
França
Albornóz
Camarões
Suécia
Valdívia
Chile
Venezuela
Bolly
Costa do Marfim
Noruega
Akpa-Akpro
Costa do Marfim
França
Sio
Costa do Marfim
França
Bamba
Costa do Marfim
França
Duarte
Costa Rica
Nicarágua
Corluka
Croácia
Bósnia e Herzegóvina
Lovren
Croácia
Bósnia e Herzegóvina
Jelavic
Croácia
Bósnia e Herzegóvina
Sammir
Croácia
Brasil
Kovacic
Croácia
Áustria
Eduardo da Silva
Croácia
Brasil
Diego Costa
Espanha
Brasil
Brooks
Estados Unidos
Alemanha
Diskerud
Estados Unidos
Noruega
Jones
Estados Unidos
Alemanha
Chandler
Estados Unidos
Alemanha
Johnson
Estados Unidos
Alemanha
Evra
França
Senegal
Mavuba
França
Angola
Boateng
Gana
Alemanha
Andre Ayew
Gana
França
Kwarasey
Gana
Noruega
Jordan Ayew
Gana
França
Adomah
Gana
Inglaterra
Kone
Grécia
Albânia
Vyntra
Grécia
República Tcheca
Holebas
Grécia
Alemanha
Indi
Holanda
Portugal
De Guzman
Holanda
Canadá
Sterling
Inglaterra
Jamaica
Beitashour
Irã
Estados Unidos
Davari
Irã
Alemanha
Thiago Motta
Itália
Brasil
Paletta
Itália
Argentina
Gotoku Sakai
Japão
Estados Unidos
Miguel Ponce
México
Estados Unidos
Brizuela
México
Estados Unidos
Odemwingie
Nigéria
Uzbequistão
Pepe
Portugal
Brasil
William Carvalho
Portugal
Angola
Éder
Portugal
Guiné-Bissau
Nani
Portugal
Cabo Verde
Xhaka
Suíça
Kosovo
Behrami
Suíça
Kosovo
Fernandes
Suíça
Cabo Verde
Mehmedi
Suíça
Macedônia
Djourou
Suíça
Costa do Marfim
Shaqiri
Suíça
Kosovo
Muslera
Uruguai
Argentina

Bem Mais Que Apenas FUTEBOL - Argentina X Irã - Atentado à AMIA


Acabou o jogo, Argentina 1x0 Irã, gol de Messi e, alívio hermano...

Em Buenos Aires, o sentimento que cerca esse jogo, não envolve apenas aquilo que acontece dentro das quatro linhas.

A Argentina com a maior população de Judeus da América Latina, aproximadamente 200 mil, em 1994 foi palco de um atentado terrorista. Em 18 de outubro um carro bomba explodiu junto a  Associação Mutual Argentina-israelense (AMIA) em um dos maiores ataques terroristas em solo argentino, matando 85 pessoas e deixando 300 feridos. 

Monumento às vítimas do atentado colocado como protesto na
frente ao palácio da justiça da cidade de Buenos Aires
Em 25 outubro de 2006, do Ministério Público e Marcelo Martinez Alberto Nisman Burgos acusou formalmente o governo iraniano de planejamento para atacar o Hezbollah e executa-lo. De acordo com a investigação do Ministério Público, a Argentina foi escolhida como alvo de ataque após a decisão do governo argentino de suspender um acordo de transferência de tecnologia nuclear para o Irã. Desde então os dois países travam uma disputa em torno da extradição dos acusados iranianos para serem julgados pela justiça argentina.

Bandeira que recorda os 6 milhões de mortos no Holocausto somados aos mortos
nos atentados à AMIA e à embaixada Israelense em Buenos Aires.

Em 2013 foi firmada uma Comissão da Verdade entre os Governos dos dois países, contudo, foi rejeitada pelas organizações judaicas por  julgá-la inconstitucional, uma feria a soberania argentina, caráter confirmado pelo Tribunal Federal argentino. 



Para completar o enredo, ainda em 2013, dois suspeitos iranianos acusados ​​de planejar o atentado contra a AMIA, Mohsen Rezaie e Ali Akbar Velayati, foram anunciados como candidatos para as eleições presidenciais iranianas.


domingo, junho 15, 2014

Bem Mais Que Apenas Futebol - Por que torcer para a Bósnia? - Marcelo Adnet



Texto bem bacana falando um pouco do processo de independência do único país estreante dessa Copa do Mundo.

Pra quem nós vamos torcer? Pro Brasil, é claro. Em poucos momentos, pra não dizer nenhum, somos nacionalistas ou nos unimos em torno de algum evento como acontece com a Copa, exceção feita à semana final de uma novela.

Mas, dentre as 32 seleções e os 64 jogos da Copa, é normal acontecer uma torcida paralela para outra Seleção enquanto o Brasil não joga. Os motivos são diversos: parentes em um país, um jogador do seu clube em campo ou até motivos políticos e sócio-culturais.
Entre a simpatia das seleções africanas, a força das europeias e a vizinhança das sulamericanas, uma seleção se destaca – a Bósnia e Herzegovina. De cara, podemos dizer que ela é a única estreante em Copas desta edição. É uma zebra, pouco conhecida e pouco badalada. De quebra, os Dragões estreiam contra a Argentina, domingo, no Maracanã. Não é pouca coisa não.

Mas não é por isso que o país comemorou a classificação como se fosse um título mundial.
O futebol tem sido o motivo de maior alegria dos bósnios nos últimos 20 anos. A Bósnia e Herzegovina (região majoritariamente croata, ao sul do país) , era o estado mais miscigenado da Iugoslávia, a “Jerusalém dos Bálcãs”, onde bósnios, croatas, sérvios, ciganos e turcos conviviam – votou pela sua independência do governo controlado pelos sérvios em 1992, seguindo Croácia, Eslovênia, depois Macedônia, Montenegro e Kosovo. 

Os governantes sérvios, orquestrados pelo líder Slobodan Milosevic abriram fogo contra a população desarmada e iniciaram uma guerra que ficou conhecida como o pior massacre na Europa após o Holocausto. O país de 4 milhões de habitantes acabou a guerra civil com metade da população – 1,4 milhões de refugiados e 100 mil mortos. Ignorados pela comunidade interacional, os mais de 3 anos de conflito culminaram com o Massacre de Srebrenica, o assassinato de mais de 8 mil homens – entre 12 e 70 anos – na cidade de mesmo nome. As mulheres jovens foram enviadas para campos de estupro. Está tudo gravado, tudo disponível ali no youtube. O general sérvio Ratko Mladic divide a população em ônibus enquanto os soldados da ONU choram, sem ação. Os mais de 8 mil mortos foram enterrados em valas coletivas e novos corpos são velados todos os anos, no dia do massacre, 11 de julho. Alguns conseguiram escapar pela floresta, andando dias até a cidade de Tuzla. Muitos morrem com facas (noz, em sérvio) e enforcadas com arames (zica, em sérvio). Por isso, até hoje alguns torcedores da Sérvia ainda cantam nos estádios “Noz, zica, Srebrenica” (“faca, arame, Srebrenica”), deixando claro que o futebol carrega toda a complexa e violenta história política da região.

A alguns quilômetros dali, em Sarajevo, a população sobrevivia como podia ao cerco de 3 anos imposto à cidade. Sitiada, bombardeada, sem água, sem energia, Sarajevo via seus civis morrerem ao andar na rua, sob a mira dos snipers sérvios, que atiravam do alto das montanhas. Em abrigos, crianças se amontoavam. entre elas estava o menino Edin Dzeko, que não imaginava que, 20 anos depois, estaria vivo e no Brasil, representando o seu país que resistiria a guerra e se tornaria independente. Este cerco, somado ao massacre de Srebrenica, à destruição de várias vilas e da milenar Mostar, não deixam dúvida – o povo bósnio sofreu genocídio, conforme declarou o Tribunal de Haya. Os líderes sérvios foram protegidos pela população do país vizinho e nunca pagaram por seus crimes de guerra.

Com o bombardeio de um mercado em Sarajevo, enquanto a população fazia fila por pães, a comunidade internacional finalmente interveio e forçou um “Acordo de Paz”. O mapa do país foi desenhado em Dayton, nos EUA e tem peculiaridades bizarras: o acesso ao mar é garantido por cerca de 20 km de litoral através de uma espécie de corredor que cruza a Croácia até o mar. A Bósnia e Herzgovinafoi dividida em duas entidades independentes – A Federação Bósnia, que abriga bósnios e croatas, e a Republika Srpska, dos sérvios. Assim, cidades bósnias como Srebrenica passaram ao controle dos sérvios, legitimando o genocídio ali ocorrido. a guerra acabou, mas a divisão política, ideológica e religiosa (servios são ortodoxos, croatas católicos e bósnios muçulmanos) ainda existe e compromete o desempenho do país. Os sérvios não se sentem parte do país e nunca entram em acordo com o governo da Federação bósnio-croata. Assim, o hino bósnbio foi substituído por um novo, cuja letra nunca foi aprovada. Por isso, quando toca o hino da nova Bósnia, a torcida do país canta o hino antigo por cima, criando a maior confusão. Os sérvios da Bósnia já pensam na separação da Republika Srpska – 49% do território bósnio e o presidente da Republika Srpska, Milorad Dodik, declarou que não torce pela Seleção da Bósnia e que não daria um centavo para os Dragões. “Chora Dodik, não precisamos de sua ajuda, Bósnia tá no Brasil e os sérvios? Ninguém viu” diz a canção “Placi Dodik” que ganhou ai internet, entre outras tantas piadas e gozações neste momento único de afirmação da independência bósnia. A BiH está em êxtase, em festa. Não é pra menos, o país que quer esquecer o passado e construir o futuro encontrou no futebol o motivo de maior orgulho de sua história. Quando os Dragões entrarem em campo logo mais, entre exilados e sobreviventes, estarão escrevendo o capítulo mais feliz da história do seu país. Por isso, seja qual for o resultado, essa Copa já é da Bósnia Herzegovina. Sellam Alejkum, que encontrem a tão sonhada paz!

Marcelo Adnet

Texto originalmente postado aqui